A caridade, assim como o Bolsa-Família, não resolvem o problema, mas alivia-o até que algo possa ser feito, e que levará anos ou décadas para surgir os resultados. Já a Justiça Social ou Distribuição de Renda é tido como um objetivo que deve ser alcançado no menor prazo possível e por quaisquer meios necessários. Uma coisa pode coexistir com a outra. Deveríamos dispensar os Primeiros Socorros e quaisquer outros meios de aliviar o sofrimento de um doente, pois só o atendimento médico resolve o problema? Nessa visão caridade vs justiça social, só há espaço para um dos dois, quando os dois são necessários, na sua devida ordem.
Outro motivo, implícito, do esnobismo à caridade é a responsabilidade individual. Além de não resolver o problema como um todo, a caridade obriga o indivíduo a fazer algo, a se mexer, a arrancar uns trocados do seu bolso. O sujeito anti-caridade é um individualista que se preocupa com os outros. Isso explica a aceitação deles pelo Bolsa-Família, pois o dinheiro desembolsado pelo programa não vem diretamente deles, nem precisam organizar a distribuição desse dinheiro, tudo é feito pela sacro governo, tudo perfeitamente terceirizado. Por isso e pelo alcance mais universal, o Bolsa-Família é visto como Justiça Social, não como uma reles caridade.
A caridade dispensa ajuda governamental, e esse é outro motivo implícito, de sua não aceitação pela esquerda, e mais particularmente, por políticos. Políticos e candidatos a esse tão nobre cargo necessitam que a população seja dependente do Estado. O Bolsa-Família é uma semi-caridade estatal constante feita com o dinheiro público, isso deixa a população pobre dependente de políticos, que por sua vez, exigirão em troca que os mantenham no poder. A caridade não é algo constante, pois isso deixaria o beneficiado dependente de quem doa, tampouco não é exigido um preço pela caridade, como é, de alguma forma, com o Bolsa-Família.
Quanto à Justiça Social – cuja definição mais literal significa linchamento – seria um conjunto de qualquer coisa que possa ser compreendida pela mente esquerdista, incluindo aí a semi-caridade Bolsa-Família. Se eu disser que a drástica redução da burocracia em todos os setores é necessária, mas sem mencionar “para a Justiça Social”, acreditarão que estou defendendo interesses burgueses, neoliberais ou imperalistas, pois a proposta não faz parte do seu limitado conjunto de “soluções”. O mesmo acontece se eu ou alguém mais corajoso alertar para as causas da inflação, essa que é o principal fator de desigualdade social, ou de Injustiça Social, e que por estranheza também não faz parte desse conjunto de “soluções” da esquerda.
Ajudar as famílias mais pobres apertando um botão do controle remoto é o sonho de todo mundo. O que diferencia os “bons” dos “maus” é que um sabe que isso é impossível, enquanto o outro espera algo parecido. Um governo que promete Justiça Social ou “que quer combater a desigualdade social” é a raio infra-vermelho desse controle remoto chamado urna eletrônica. A caridade é o oposto disso, ela obriga o sujeito a sair do sofá e abrir mão de uma ínfima parte de seus preciosos bens. Se resolverá algo, não interessa muito, o problema é sair desse sofá. Comodidade, limitação de idéias, e a impressão de não poder defender as duas coisas, eis porque são contra a caridade e defensores da Justiça Social Ltda.