Não estou acompanhando direito, mas dizem que internautas
brasileiros estão discutindo com alemães sobre a ideologia do nazismo, se é de
esquerda ou direita. Eu não discutiria com os alemães sobre nazismo ou sobre o grau de pureza de cervejas, a menos que
utilizasse fontes alemãs, mas posso discutir com qualquer um sobre esquerda e
direita. O que estão discutindo está errado, o foco é outro. É como no conto d’A Velha Contrabandista, onde o guarda da alfândega desconfiava que a idosa
contrabandeava uma coisa, mas na verdade contrabandeava outra.
Existe uma definição pouco clara para esquerda e dúbia para
a direita. Direita é tudo aquilo que não é de esquerda? Se for assim, então o
nazismo era, de fato, de direita, mas não extrema-direita, pois nessa
definição não existem extremos. Talvez fosse anti-esquerda ou oposto a
esquerda em tudo, mas não “extrema-direita”. E cá entre nós, o nazismo não era
tão diferente da esquerda assim.
Se direita é tudo aquilo que não for de esquerda, então
devemos definir o que é esquerda. É importante saber sobre ela, pois, é quem
dita essas regras. Quem nos diz o que é esquerda e direita são nossos
professores (de esquerda), o líder sindicalista (de esquerda) e até o padre,
que não é de direita. Não vou aborrecê-los citando as origens iluministas,
passando pelo marxismo , revoluções e escolas com nomes de cidades alemãs, até
porque, reconheço, não sou versado no assunto. Vou falar do esquerdismo do
cidadão médio, daqueles que elegem partidos de esquerda e juram que o nazismo é
de direita.
A esquerda vislumbra uma divisão primordial da sociedade,
imutável, duas castas: ricos e pobres. Nessa divisão, não existe uma mobilidade
social natural, nem pequenos intervalos no espectro social, como classe média
baixa ou classe baixa média. A esquerda não aceita qualquer divisão
social acima dessa. A perspectiva da esquerda tem como ponto de origem os pobres, a base da pirâmide social, por isso, seu grande objetivo é forçar uma mobilidade social até alcançar o equilíbrio, onde todos
terão praticamente a mesma riqueza – a chamada distribuição da renda, ou justiça
social ou fim das classes sociais. Lembrando que não existe, para o esquerdista, qualquer outra divisão social superior, portanto, nem objetivo mais sagrado que a distribuição a
renda.
Em um mundo tão desolador quanto esse proposto pela esquerda, só há duas alternativas: se preocupar com os pobres, defendendo a transferência de renda
dos mais ricos, ou defender os ricos, mantendo tudo como está ou até desejar o
aprofundamento da desigualdade. O
nazismo dividia a sociedade entre raças, não em classes: os arianos e os
demais, mas ao contrário da esquerda, sua perspectiva era da ala superior dessa
divisão, observavam a sarjeta não-ariana da sacada ariana. Provavelmente, esse é o caráter “direitista” do nazismo, algo que
podemos chamar de “elitismo”. Seria essa a verdadeira diferença entre esquerda
e direita? Se for, devemos jogar vários direitistas para a neutralidade, uma
vez que esses não colocam quaisquer divisões em primeiro plano, tampouco vêem a
sociedade “por dentro”, de baixo pra cima ou de cima pra baixo, mas "por fora".
Notem que essa visão de superioridade dos nazistas se assemelha a da classe rica, ao menos, a uma parte dela, com a diferença que os nazistas escravizavam ou exterminavam os “inferiores”, o que lhe confere o caráter de “extremo”. O nazismo, então, seria de “extrema” (por levar ao paroxismo sua visão de mundo) – “direita” (por seu elitismo). O estereótipo do direitista, criado pela própria esquerda, existe; o problema é acreditar que todos que não comungam de sua visão de mundo se encaixe nele.
Notem que essa visão de superioridade dos nazistas se assemelha a da classe rica, ao menos, a uma parte dela, com a diferença que os nazistas escravizavam ou exterminavam os “inferiores”, o que lhe confere o caráter de “extremo”. O nazismo, então, seria de “extrema” (por levar ao paroxismo sua visão de mundo) – “direita” (por seu elitismo). O estereótipo do direitista, criado pela própria esquerda, existe; o problema é acreditar que todos que não comungam de sua visão de mundo se encaixe nele.
Mas, a esquerda está errada em desejar a igualdade? Não há
como negar que o objetivo é nobre, o problema são os meios
sugeridos e empregados para alcançá-lo. E quais são eles? Os mais simplistas ou fáceis de
conceber: revoluções, assistencialismo, desapropriações e invasões de terra...Tudo
por uma distribuição forçada de renda. Qualquer medida mais complexa,
sustentável, cirúrgica e que levaria mais tempo para concretizar é visto como
algo direitista, pois, como eu disse anos-luz atrás, não se enquadra na visão.
Sempre contesto a esquerda por causa dessas soluções
simplistas para um problema complexo, que trarão algum benefício no curto prazo,
mas problemas ainda mais sérios à frente. E quando os problemas vierem, a
primeira reação da esquerda será a negação, quando isso não for mais possível,
culparão as elites, a direita (qualquer um que não seja de esquerda), os EUA, Israel,
os Illuminattis, o aquecimento global, a Confederação Galáctica, mas nunca suas
brilhantes medidas. Feito o estrago e incapazes de reconhecer a falha de seus métodos, farão tudo de novo em outro lugar. Quem ousar ser contra isso é direitista, tendendo ao nazismo.
A falta de uma definição clara e objetiva para direita
coloca num mesmo saco homens cruéis com mulheres caridosas, loucos com sensatos,
nazistas com o pedreiro que vota no Bolsonaro. Precisamos rever isso.