quarta-feira, 29 de maio de 2019

Aborto, direitos e deveres

Dizem – as mulheres abortistas – que o assunto “aborto” é exclusividade das mulheres. Sou homem, mas falarei sobre o aborto. Quando dizem que homem não pode falar sobre o aborto, a bem da verdade, querem dizer que opiniões contrárias ao aborto não devem ser mencionadas. De qualquer modo, isso gera algumas contradições, como a mulher que é contra o aborto poder comentar, mas homens favoráveis ao aborto não podem. Contradições desse tipo não apenas não me surpreendem, como tenho um catálogo só delas.



Minha opinião sobre o assunto é que cada caso deve ser analisado. No geral, sou contra, mas não totalmente, até porque estamos lidando não apenas com um, mas dois corpos. No caso em que a gravidez é causada por estupro ou que põe em risco a vida da mãe ou mesmo do feto em gestação, sou favorável à decisão da mãe, embora no primeiro caso, também deveríamos ouvir a opinião das mulheres - não dos homens - que nasceram de um estupro. Merecem ser ouvidas, não? Optar pelo aborto nessas condições é um ato humano, compreensível, mas optar pela gravidez é um ato divino. Nos demais casos, a gravidez é evitável, não apenas pela mulher, mas pelo homem. A bem da verdade, tanto a mulher quanto o homem devem ser responsabilizados pelo feto ou bebê que ela carrega, e não apenas pela mulher, alvo único dos prós e principalmente dos contras.



Quem é a favor do aborto pode continuar sendo, mas repense sobre isso, depois do que ler o ditame abaixo.



O ser humano, em geral, quer o máximo de direitos e o mínimo de deveres. Em muitas situações, o direito de um gera um dever para outro. O direito de um trabalhador em receber uma carteira de trabalho assinada e seus benefícios, por exemplo, exige o dever do patrão em assiná-la. O trabalhador lutará pelos seus direitos, enquanto o patrão fará de tudo para evitar esse dever. Imaginem a situação da empregada doméstica se o patrão recusar a assinar a carteira. Mas quando o direito de outrem exige um dever para essa mesma empregada e para nós mesmos? Ironicamente, um dever para as mesmas pessoas que lutam por seus direitos que custarão um dever para outros. Aí entramos na questão do aborto.



Convencionou-se chamar Direito A Vida a preservação da vida já existente, das nossas vidas. O “direito à vida” acaba sendo apenas um direito garantido, não o direito de receber aquilo que não tem, por isso, o direito do feto, mesmo sem vida, em receber a vida acaba não sendo reconhecido como direito. A justificativa usada, normalmente, é que o feto não tem coração, nem cérebro, nem coragem, mas não é lhe dado o direito de percorrer a estrada de tijolos amarelos que o levará à vida normal. Outra justificativa é que o feto não é um cidadão, portanto, o “direito a vida” não é aplicado nessa situação. É claro que essa regra não se aplica a todos os “não-cidadãos” como os animais, “mas aí é diferente...”



Pegue todas essas justificativas pró-aborto, jogue tudo fora e aceite que o verdadeiro motivo do apoio ao aborto é que isso gera um dever principalmente para as mulheres. E todos nós queremos o máximo de direitos e o mínimo de deveres. Defendemos os direitos de qualquer um, mesmo os de “não-cidadãos”, desde que isso não gere um dever para nós. Imaginem se a empregada, prestes a receber sua carteira de trabalho, é demitida dias antes; geraria uma onda de protestos nas redes sociais. Imaginem agora se um feto, prestes a receber uma vida, é abortado dias antes; talvez uma nota de apoio à mãe (ou mesmo ao pai) aborteira. Em nome dos direitos máximos e deveres mínimos, consideramos a carteira de trabalho algo mais sagrado que a vida de quem ainda não tem, ou, um maníaco estuprador como um cidadão pleno de direitos, enquanto o feto que em poucos meses se tornaria uma criança inocente e amável em um não-cidadão sem direitos. Essa é a demência dos nossos tempos.



O direito ao aborto irrestrito se iguala ao direito do patrão em não assinar carteira, ou ao direito de um senhor de escravos em manter escravos em sua propriedade e tratá-los da forma que lhe convém (“minha propriedade, minhas regras”). A diferença nos dois casos é que um é proibido por lei, o outro, não querem que uma lei proíba, em nome de seus direitos de não arcar com o dever originado pelo direito dos outros, dos “não-cidadãos”. Em tempo: os judeus alemães tinham vida, cérebro, coração, emoções, tudo mais, mesmo assim, eram considerados não-cidadãos por seres que se consideravam no direito de eliminá-los.



Não espero que isso mude sua opinião a respeito do aborto, mas ao menos seja sincero consigo mesmo e com os outros, de admitir que seu “direito ao aborto” é apenas uma atitude tão egoísta quanto a dos patrões de quem tanto reclama. Dizem que o sonho do oprimido é ser opressor, mas o fato é que o oprimido de uma causa é o opressor de outra.


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Caridade x Justiça Social


A melhor forma de conhecer a esquerda é saber o que defendem; com a direita é a mesma coisa. Vejam nas redes sociais, nas rodas de amigos ou na estação do metrô comentários como “devemos distribuir a renda”, “pensamos no social, não no econômico” (e o resultado é uma Cuba ou Venezuela). Agora, porém, temos uma nova sentença que certamente salvará a humanidade: “caridade não resolve nada, o importante é a justiça social.”



Justiça Social é o novo nome da Distribuição de Renda, o cálice sagrado da esquerda, enquanto a caridade seria a embalagem de vidro sendo usada como copo. A princípio, não há como discordar que mudanças mais profundas são necessárias e desejáveis, muito mais que medidas paliativas. A incapacidade de encontrar semelhanças ou diferenças entre dois elementos faz com o que o nobre defensor dessas medidas se contradiga com frequência. Vejamos um exemplo: há semelhanças entre o Bolsa-Família e a caridade, mas a esquerda é contra a caridade e a favor do Bolsa-Família, que na visão deles, essa tem mais semelhanças com a tal Justiça Social e nenhuma com a caridade.



A caridade, assim como o Bolsa-Família, não resolvem o problema, mas alivia-o até que algo possa ser feito, e que levará anos ou décadas para surgir os resultados. Já a Justiça Social ou Distribuição de Renda é tido como um objetivo que deve ser alcançado no menor prazo possível e por quaisquer meios necessários. Uma coisa pode coexistir com a outra. Deveríamos dispensar os Primeiros Socorros e quaisquer outros meios de aliviar o sofrimento de um doente, pois só o atendimento médico resolve o problema? Nessa visão caridade vs justiça social, só há espaço para um dos dois, quando os dois são necessários, na sua devida ordem.



Outro motivo, implícito, do esnobismo à caridade é a responsabilidade individual. Além de não resolver o problema como um todo, a caridade obriga o indivíduo a fazer algo, a se mexer, a arrancar uns trocados do seu bolso. O sujeito anti-caridade é um individualista que se preocupa com os outros. Isso explica a aceitação deles pelo Bolsa-Família, pois o dinheiro desembolsado pelo programa não vem diretamente deles, nem precisam organizar a distribuição desse dinheiro, tudo é feito pela sacro governo, tudo perfeitamente terceirizado. Por isso e pelo alcance mais universal, o Bolsa-Família é visto como Justiça Social, não como uma reles caridade.



A caridade dispensa ajuda governamental, e esse é outro motivo implícito, de sua não aceitação pela esquerda, e mais particularmente, por políticos. Políticos e candidatos a esse tão nobre cargo necessitam que a população seja dependente do Estado. O Bolsa-Família é uma semi-caridade estatal constante feita com o dinheiro público, isso deixa a população pobre dependente de políticos, que por sua vez, exigirão em troca que os mantenham no poder. A caridade não é algo constante, pois isso deixaria o beneficiado dependente de quem doa, tampouco não é exigido um preço pela caridade, como é, de alguma forma, com o Bolsa-Família.



Quanto à Justiça Social – cuja definição mais literal significa linchamento – seria um conjunto de qualquer coisa que possa ser compreendida pela mente esquerdista, incluindo aí a semi-caridade Bolsa-Família. Se eu disser que a drástica redução da burocracia em todos os setores é necessária, mas sem mencionar “para a Justiça Social”, acreditarão que estou defendendo interesses burgueses, neoliberais ou imperalistas, pois a proposta não faz parte do seu limitado conjunto de “soluções”. O mesmo acontece se eu ou alguém mais corajoso alertar para as causas da inflação, essa que é o principal fator de desigualdade social, ou de Injustiça Social, e que por estranheza também não faz parte desse conjunto de “soluções” da esquerda.



Ajudar as famílias mais pobres apertando um botão do controle remoto é o sonho de todo mundo. O que diferencia os “bons” dos “maus” é que um sabe que isso é impossível, enquanto o outro espera algo parecido. Um governo que promete Justiça Social ou “que quer combater a desigualdade social” é a raio infra-vermelho desse controle remoto chamado urna eletrônica. A caridade é o oposto disso, ela obriga o sujeito a sair do sofá e abrir mão de uma ínfima parte de seus preciosos bens. Se resolverá algo, não interessa muito, o problema é sair desse sofá. Comodidade, limitação de idéias, e a impressão de não poder defender as duas coisas, eis porque são contra a caridade e defensores da Justiça Social Ltda.